domingo, 16 de maio de 2010

O ninho do pássaro de fogo (de Alma Welt)

O vento acompanhou meu crescimento
Desde que aqui fui transplantada
Por sorte num perfeito e bom momento
Para neste Pampa ser moldada.

Bá! Como uma potra agradecida
A correr de imediato na coxilha,
A abrir assim os braços para a vida,
E a dar-me ao Minuano como filha.

Não posso então queixar-me, nunca pude,
Apesar daquele mítico percalço
A que refiro, comovida e amiúde,

Pois aqui fui arrancada como um ninho
Do pássaro de fogo que ainda alço
E que persigo como um éden de carinho...

(sem data)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Auto-definição (de Alma Welt)

Não sendo afinal tão transparente,
Por puro gosto do mistério e do oculto,
Nichos secretos guardei na minha mente
E sempre acompanhada por um vulto,

Não que seja o Mal ou coisa assim,
Nem mesmo eu diria ser a “sombra”
Porquanto sua presença não me assombra
Embora não também um serafim.

Mas a musa Erato, mais que ninfa,
Ou a bela Psiqué... então princesa,
Que é do meu pomar a própria linfa.

Uma forma-pensamento da Beleza,
O verso conclusivo e mais profundo,
Minha Anima, Welt, que é o Mundo.

(sem data)

Nota
Soneto descoberto esta manhã na Arca da Alma, e que me parece uma verdadeira "chave" para a comprensão do universo da grande poetisa universal do Pampa.

terça-feira, 6 de abril de 2010

O olhar do Poeta ( de Alma Welt)

Tudo merece verso, nada escapa
Ao abraço amplo da Poesia
Que é tão somente a antiga capa
Que as coisas e os seres envolvia

No tempo das brumas e mistérios,
Quando envolto em névoas de magia
Vagava o ser por entre eremitérios
Buscando o que o Graal esconderia.

O Cálice, agora já o sabemos,
Está entre nós em quase tudo
Que o olhar desvela quando vemos.

Mas ver ainda é segredo do Poeta,
Pois que o vulgo tem o olhar mudo,
Sem o Todo e o Sacro como meta...

12/08/2005

O que é a Alma (de Alma Welt)

Ter um olhar claro sobre o mundo
Foi sempre o meu maior escopo.
Verde nos meus olhos, claro e fundo...
Quanto a julgamento: nem um pouco.

Buscando restaurar os tons primevos,
Em meio à uma bruma retornada
De tempos difíceis, medievos,
Entre trevas e a aurora anunciada...

Não mais me diz respeito a ninharia,
As falhas do meu tempo, a ignorância.
Viver como se o mundo a compreendia

Eis mesmo o que de si foi esperado
Por aquela que não conheceu ganância
E aguarda da Beleza o seu primado...


(sem data)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Noites do casarão (de Alma Welt)

Minhas noites aqui neste casarão
Há muito já não me trazem paz,
As correntes arrastando pelo chão
Ou coisas que o valham, lá de trás,

Ais, sussurros, alaridos e patadas
Povoam desde o sótão ao porão
De vultos e memórias assombradas
A casa decadente, em profusão.

Mas eu tolero tudo isso por amor
Da sombra forte e doce da heroína
Que me honra repartindo a sua dor,

Anita, que eu espero na fronteira
Valhacouto da amiga derradeira
Entre a vigília e o reino da morfina...


(sem data)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Expedição ao Cerro (de Alma Welt)

Bem cedinho partimos pro Jarau
Com nossas mochilas e cajados.
Chegamos, não mais jovens e corados,
Tendo atravessado o rio a vau.

Perdi nessa jornada um meu amigo,
Outros tiveram medo e desistiram.
Os amores que, valentes, persistiram,
Surpreendentemente estão comigo.

Os que restamos com fé e sem cobiça,
Mantendo a esperança como antes,
Chegaremos à sala dos diamantes

Onde a Salamandra se espreguiça
Do sono milenar enquanto espera
Vencermos em nós mesmos nossa fera...

(sem data)

Nota
Como muitos da Alma, soneto nitidamente simbolista. O mito gaúcho da Salamanca (ou Salamandra) do Cerro do Jarau, eternizado por Simões Lopes Neto, foi aqui abordado como metáfora da jornada da vida. O rio atravessado a vau certamente deriva de Heráclito... (Lucia Welt)

domingo, 17 de janeiro de 2010

Receita de licor (de Alma Welt)

É tão oculto e raro o ambiente
Que se faz necessário ao cozimento
Da polpa das horas com a semente
De poesia, na alma em fogo lento.

E depois de decantar e arrefecer
Deixar fermentar por muitas horas
Antes que vás servir e oferecer
Mas evitando fazê-lo às senhoras,

Pois esta bebida não foi feita
Para a mente fraca ou leviana,
Nem pra ociosos pés-de-cana...

Esse licor é claro, forte, mas sutil,
E nasceu com Deméter, da colheita,
Detentora do alambique e do funil.

(sem data)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O espectro (de Alma Welt)

Diante da casa detive meu cavalo
E notei que continha não memórias,
Mas ninharias que não foram pelo ralo
Do tempo a escorrer as suas horas...

Dei rédeas ao meu pingo e retornei
Pois prefiro os espectros com que privo
Ainda que um pareça um morto vivo,
O Valentim, cuja saga já contei...

Pois bem: no seu pescoço ainda deixa
Um resto da corda que o sustenta
Para a toda a eternidade dos perdidos.

Mas posso conviver com sua queixa
Enquanto o coração ainda agüenta
Os lamentos, o pranto e os gemidos...

17/04/2005

sábado, 12 de dezembro de 2009

O Ogro (de Alma Welt)

A cada dia descubro nova face
Do meu próprio enigma na vida,
Mas se a alma gosta de disfarce
A inteireza está comprometida.

Não sou uma, sou muitas, isso dói,
Embora faça viver intensamente.
Viver somente a vida como soe
Já não pode acalmar a minha mente.

Então amo, escrevo e vivo em dobro
Nos cenários desta e de outras vidas,
Sempre a fugir do Grande Ogro,

Um cavaleiro negro e embuçado
Que perpetra no escuro as investidas,
Pois nunca mostra a face o nosso Fado...

(sem data)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Canção sinistra (de Alma Welt)


A Peste- de Arnold Böcklin 1827-1901


Canção sinistra (de Alma Welt)

Chegamos ao fim, não tem mais jeito,
O mundo se acabou e já o vemos,
O Mal é o burgomestre ou o prefeito,
O caos se instalou e é o que temos.

Corram, corram, amigos desta aldeia
Aí vêm do tirano os quatro esbirros,
Foices já não brilham e a cara feia
Respingadas pelo sangue nos espirros.

Um corvo ali crocita no patíbulo
Mas a madrugada ainda teremos,
Vamos todos juntos ao prostíbulo.

Dancemos, cantemos e bebamos
A manhã por certo não veremos.
Ah! A vida foi tão breve e já nos vamos...

17/01/2007


O Eterno Cavaleiro- Litografia de Guilherme de Faria

domingo, 22 de novembro de 2009

Patética e inacabada (de Alma Welt)

O soneto é partitura do meu dia
E contém as notas, timbre e tom
De um andante meu na pradaria,
Dispondo se o concerto será bom.

Mas ao primeiro acorde inusitado
Regerei meu dia entre visões
E propensa a consultar o Fado,
Maestro verdadeiro... de ilusões.

Vê, o primo verso em tom saudoso
Já me arrasta em vã melancolia
Pelo longo adágio do meu dia...

Mas de minha sinfonia inacabada
O patético “finale maestoso”
Há de compor-se ao termo da jornada.

(sem data)

sábado, 21 de novembro de 2009

De feiticeiras, sopranos e contraltos (de Alma Welt)

Amar, grande mistério, é Deus em nós,
Assim como odiar é o Diabo.
E este dito perdura muito após
O tempo em que o cujo era invocado

Não só a torto e a direito nas igrejas
Mas na cozinha das velhas feiticeiras
Que com a feiúra e nariz de brotoejas
Aqueciam mais que nossas mamadeiras,

Mas asas de morcego e alguns sapos
Com o fio de cabelo de um incauto
Que ousara cuspir nos nossos trapos.

Bah! Miséria... do soprano até o contralto*,
Destino da mulher por tantos séculos,
Pernas abertas a sementes e espéculos!*...

(sem data)


Notas

*...do soprano até o contralto- Alma quer dizer: das mulheres frágeis até as mais fortes.

*...sementes e espéculos- significa a procriação e a tortura (espéculo, hoje em dia um instrumento médico ginecológico, era um instrumento de ferro para torturar mulheres nas masmorras da Inquisição. Sugestivamente, a palavra deriva do latim, speculum= espelho. (Lucia Welt)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Arte em mim (de Alma Welt)

Dei-me cedo a mim mesma permissões
Que a Vida não daria de bom grado
A um astro, soberano ou potentado,
Mas no mundo interno: o das visões.

Aqui fui princesa e sou rainha,
Estrela maga, infanta, feiticeira.
Aqui a bela Terra é toda minha
E a minha visão é a verdadeira

Pois não há como de mim desencantar
O mundo que criei, de tão sutil
A diferença entre o ser e o avatar.

E se o Mistério há em toda parte,
Em mim cristalizou-se como arte
Com as palavras gravadas a buril....

(sem data)

sábado, 7 de novembro de 2009

O Sonho do casarão (de Alma Welt)

À meia-noite o sonho começava
Após a badalada derradeira,
Como doze golpes numa aldrava
De outra grande porta de madeira

Que não a do próprio casarão
Mas do castelo em festa, revelado,
Que há aqui mesmo no sobrado
E que emerge das sombras do porão

Lá onde as garrafas dormem cheias
E esperam, cada vez mais preciosas
Um novo tempo de vinhos e de rosas

Que só ocorrerá no mesmo sonho
Pois o Tempo suspenso tece teias
Que enredam o real reino tristonho.

(sem data)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A Usurpadora (de Alma Welt)


Da série Dança Macabra- xilogravura de Rethel

A Usurpadora (de Alma Welt)

Após a queda, retorno ao casarão,
Que andara pelo mundo, peregrina
Em busca de algo numa esquina
Que mesmo aqui estava, neste chão.

De meu feudo a Morte me expulsara,
Não me queria aqui sem o meu Vati.
Da Infanta destronada se livrara,
Que me tornara amarga como o mate...

A Usurpadora lágrimas não quer,
Um pé lá, outro na vida, qual anfíbia,
Mas na macabra orgia é só mulher,

Devassa, sinistra e falsa amável,
A vi tocar um violino numa tíbia
Na sala do defunto inigualável...

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Noites retornadas (de Alma Welt)

Noites retornadas na memória!
Belas noites quentes de verão
Quando eu contava nossa estória
Para meus guris amados, no portão

Frente à relva coruscante deste prado
Na orla do jardim da velha Frida
Do ilustre casarão meio arruinado
Pela saga intensa de outra vida

E revíamos os amores e as lutas
Que eu mesma narrava sem receios
Sem me saber herdeira das disputas

Que depois fizeram ver a dura lança
À nova estirpe por outros rubros meios:
Derramando nosso vinho e nossa herança...

(sem data)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O cavaleiro (de Alma Welt)

Pelas noites vinha o cavaleiro
Armado de fuzil e cartucheira,
No peito, cruzada, a bandoleira
E na cintura uma faixa de toureiro

Com o punhal de prata e bombachas,
O chapéu era pequeno e dobrado,
Tinha fileiras de bordadas tachas
Na frente, e aos ventos do meu prado.

Mas ele cavalgava sem um senso
E mirando-me assim ele apontava
Mas passando por mim arremetia

No louco rumo do nevoeiro denso
Onde por encanto ele sumia
Enquanto o véu do tempo se fechava...

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Iniciação (de Alma Welt)

À meia noite o portal se abria
E tudo se passava no meu bosque.
Eu saía do meu quarto e lá eu ia
Para o mágico encontro no quiosque

Das fadas e demais elementais
Que temias, eu me lembro, e evitavas
Como conspirações de ardis fatais
Que nos mandariam e tudo às favas:

A ordem, os desígnios e o destino
Que a gente há muito construía
No plano destes prados, dia a dia.

Mas tu mesmo, Rodo, foi primeiro
A me mostrar no espelho o aço fino
Entre o bosque e o mundo verdadeiro.

(sem data)

sábado, 5 de setembro de 2009

O Bosque da Poesia (de Alma Welt)

O meu bosque é território de magia
Desde que bem criança o adentrei
Sozinha, pois que medo não havia
Apesar do silêncio que encontrei

De súbito rompido pelo canto
Que, romântica, chamei de “rouxinol”
Pois que era o momento do encanto
Com os últimos reflexos do sol.

Mas logo sombras se adensaram,
Se fizeram ver e ameaçaram
Com a face escura deste mundo

Até que entre as fadas e a guria
Selou-se então o pacto profundo
Que é a fonte ou raiz desta Poesia...

(sem data)

Dupla Saga, ou Sonhos do casarão (de Alma Welt)

Quando à noite o casarão dormita
E sonha a saga digna e honrosa
De uma família não tão esquisita
Como esta dos Welt, espantosa,

Eu ouço os murmúrios e até gritos
Das batalhas finais dos farroupilhas,
Quando as preces igualmente dos aflitos
Eram por outros lances e outras filhas.

Agora quem nos reza longo terço
É a Matilde, o vero esteio desta casa
Que protegeu “las niñas” desde o berço

E jurou não deixar o mal interno
Se agitar em nós como uma asa
Negra, que ela teme vem do Inferno...

(sem data)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Post Mortem (de Alma Welt)

Peregrina a vagar nas pradarias
Eu me tornei a Alma do meu Pampa
E os gaúchos em suas montarias,
Reverentes vêm até a minha campa

E apeando depositam um raminho
De flores do meu campo em primavera,
Ou dos seus amargos um saquinho
Antes de seguirem pra Rivera

Onde o prado encontra os castelhanos
Que outrora ferozes combatemos
E que agora na verdade tanto amamos

E temos como símbolos do humilde
(pelo menos os fiéis que recolhemos),
Corações como o Galdério e a Matilde.


(sem data)

terça-feira, 7 de julho de 2009

Posteridade pampiana (de Alma Welt)

Estarei por aqui por muito tempo
Nestes prados e sendas ancestrais,
Vagando nas noites estivais
Ou mesmo cavalgando contra o vento,

Esse frio Minuano que é meu rei
E soube das minhas ambições,
Dos sonhos que urdi e os que herdei
Dos godos meus avós e dos peões,

Em brios carregando em suas selas
A herança eterna farroupilha
Que anima o casarão e acende as velas

Que aqueceram de mim mesma a vã vigília
Repleta das lembranças de uma vida
Tão ardente e em poesia consumida.

07/01/2007

domingo, 21 de junho de 2009

A casa vazia (de Alma Welt)

Minha casa imensa ora me assusta
Pois foram-se os amigos e parentes
Minha Mutti há muito não me susta
Prazeres que achava impertinentes.

Pois que ela também, há muito, foi-se
E Solange a seguiu, depois Alberto.
Todos eles... mas a tal dama da foice
Deixou minha data ainda em aberto.

E Geraldo, não mais que um bandido
E de minha doce Lucia um mau marido
Que ousou muito abusar desta guria,

Esse não faz falta e ainda me assombra
Com espectros trazidos da coxia
Do palco que agora vive em sombra...

29/12/2006

Nota
É estarrecedor pensar como a guria do pampa sofreu, vendo seu "palco" se esvaziar, e o fantasma de seu estuprador ainda a assombrá-la...
(Vide o romance O Sangue da Terra):
http://romanceosanguedaterradealmawelt.blogspot.com

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O cavalo de fogo (de Alma Welt)

Por aqui o cavalo vai sem meta
Todo em chamas a vagar na pradaria
E me lembro do outro, o do poeta
Lima que seu livro incrível lia.

E hesitamos, eu, Rodo e Galdério
Em segui-lo à distância pela noite
Pois seu rastro deixado como açoite
É como aquela luz de cemitério,

De santelmo, como dizem marinheiros
E o gaucho que se esvai em pleno pampa
O avista nos momentos derradeiros

Quando segurando o ventre rubro,
E da coxilha a galgar última rampa
Segue o íncubo cavalo que descubro...

(sem data)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

O embuçado (de Alma Welt)

Galdério, ó Galdo, o que é aquilo
Que vimos, embuçado, pela estrada
Quando íamos a passo bem tranqüilo
E então me vi sobressaltada?

“Alma, patroinha, não é nada,
Aquele não é senão Judas Leproso,
E a sineta de som pouco lamentoso
Ele agita pra afastar a peonada,

Que de longe lhe deixa o de comer
Pois dinheiro não lhe querem pôr na mão,
Que outros não iriam receber...

E a pobre alma penada é intocável,
E morrerá sem que jamais nenhum peão
Le mire a face morta e deplorável...”

(sem data)

Reminicências (de Alma Welt)

Outrora eu ia nua até a fonte
Buscar água e ervas milagrosas
Que aprendia com mestre Quironte
O mago das quatro patas grossas.

Nos sagrados bosques de Elêusis
Fui discípula daquele sábio nume,
E por colegas tive semideuses
Cultuando do mestre o claro lume.

E ninfa eu mesma fui ou me tornei,
Perdoem-me vocês a bizarria
Aparente do que agora me lembrei,

Pois o que fluente a mente aborda,
Reparem, não é nenhuma algaravia
Mas aquilo que a alma ainda recorda...

(sem data)

terça-feira, 9 de junho de 2009

O nevoeiro (de Alma Welt)

Chegou a estação dos nevoeiros
Que erguem na campina denso muro
E faz tremer valentes e vaqueiros,
Pois pra eles ali mora o lado escuro.

O bosque proibido está imerso
Na bruma da fantástica neblina
E não haverá um ser perverso
Que não habite além desta colina.

De branco então entro em névoa alva
Para espanto do Rodo e do Galdério,
Como adentrasse à noite o cemitério.

Nessa nuvem densa e silenciosa
Eu encontro meus seres, sã e salva,
Pois da mesma natureza esplendorosa...

06/06/2005

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Vento, cavaleiro (de Alma Welt)

Vento, cavaleiro da colina,
Vem buscar-me, ó vento da manhã,
E leva-me contigo à outra sina,
Não me deixes morrer de forma vã.

Deixa-me voar, sou toda aérea
E minha pele é clara como o ar
Sou filha dos elfos, quase etérea
E não queria à terra assim baixar.

É por isso que alço os meus sonetos
E deixo o corpo por instantes
Que é a minha forma de ficar

Entre sonhos e espectros constantes
Que me instigam e lançam os motetos
Que me doam as asas pra me alçar...

(sem data)

As vozes do Tempo (de Alma Welt)

Levanto-me ao ouvir os sons da noite
Que aos outros parecem inaudíveis,
Não de grilos e sapos, sons tangíveis
Do Tempo, onde quer que ele se amoite

Pois de dia se evaporam e exalam
Sob o azul que quer só o presente
Ao vento das campinas onde calam
Os talos do capim que se ressente.

E como os que estiveram deste lado
Eu me vejo desde uma outra infância
Auscultando os sussurros do passado

E a verter das noites para os dias
As vozes gravadas à distância
No silêncio destas velhas pradarias...

(24/05/2006)

A Era romântica (de Alma Welt)

Eu já estive nesta casa, eu o sinto.
Sentava-me à mesa como agora,
Os convivas se enchiam de absinto
E tardavam muito a ir embora.

Mas me lembro de um que era sóbrio
E notando meu desgosto e desalento
Para evitar-me algum opróbrio
Me convidava a passearmos ao relento.

E eu já então chegada ao verso
Declamava para ele minha poesia,
Concentrando seu olhar nada disperso.

“Abandonei os bebedores comezinhos”
-ele com olhos marejados me dizia-
“E me embriago agora de outros vinhos...”

08/03/1990

Nota
Alma quando estudou na Alemanha, foi à França e visitou parentes na Alsácia-Lorena, terra de nossa avó Frida, e disse ter sentido a sensação de já ter estado na vetusta casa onde aquela nasceu e morou até a juventude. Então escreveu este soneto que expressa essas sensações, que ela considerou reminiscências de uma sua encarnação na “era romântica”. Resta saber quem foi esse interlocutor...
(Lucia Welt)

Ofélia (de Alma Welt)

Hoje o dia amanheceu enevoado
Evocando antigas brumas de Avalon,
Mas levanto e capricho no penteado
Em bandós e nem um toque de baton.

E com uma saia longa e meu chale
Me vejo um tanto mais vitoriana
A vagar numa charneca ou num vale
Como Tess, e muito menos pampiana.

Então, triste e encarnada no papel
Vou até o soturno lago meio opaco
E me inclino sobre águas como um véu

Que me nega as luzes que preciso
Para mirar meu rosto ainda que fraco
E mais para uma Ofélia que Narciso...

10/01/2007

A abantesma (de Alma Welt)

No riacho que produz minha cascata
Costumo vadear erguendo a saia,
Ou “vadiar”, diz Matilde caricata
A frisar minha brancura que desmaia.

Ou então, ela diz, "faz desmaiar",
Pois pudica que é, quer alertar-me
Ou prevenir que o povo vai acreditar
Qu’é d’uma abantesma este meu charme.

Mas estou mais inclinada ao nu total
E há muito que com Rodo ou sozinha
Sou eu a alva ninfa em meu quintal.

E o povo a lenda ama e perpetua:
“Visagem” sou da branca patroinha,
Que muito hei de vagar à luz da lua...

08/06/2005

Plantei um poema em meu jardim (Alma Welt)

Plantei um poema em meu jardim,
Mais secreto e apto a dar flores
E que oculto permanece quieto assim
No tempo em que se agitam os amores.

Enquanto a juventude canta e geme
Lançando sua semente aos quatro ventos,
As minúsculas embarcações sem leme
Que vão dar às praias e tormentos,

Esta semente do poema da velhice
Lança suas raízes bem mais fundo
Antes de alcançar a superfície.

Pois meu poema sábio e despojado
Ainda não nasceu e é tão calado
Que talvez nem seja deste mundo.


05/10/2006

Os Tempos e os Ventos (de Alma Welt)

Inolvidáveis tardes do meu prado
Quando em silhueta e uma aura
O adeus deste poente agraciado
O rubro dos cabelos me restaura

E junto ao grande umbu frondoso
No alto da colina em pleno pampa
Me vejo tal qual aquela estampa
Do vento que levou o nosso gozo

E então retorno e subo ao casarão
Que anoitecido desperta suas memórias
Como os guris a deslizar no corrimão

De seus jovens sonhos revividos
De outros poentes e outras glórias
De tempos e ventos esquecidos...

(sem data)

Memórias farroupilhas (de Alma Welt)

Pelas trilhas em volta do sobrado
Que se eleva sobranceiro na planície,
A fachada como a face de um barbado,
Com sua decantada esquisitice,

Recoberta pela hera e não grisalha
Conquanto mais vetusta que a do Vati,
E que sobe a parede até a calha
Com sua textura cor de mate,

Eu perambulo nos dias e nas noites
Procurando senhas e vestígios
Dos antigos farrapos e prodígios

Que me são anunciados por murmúrios,
Gemidos de cilícios, seus açoites,
Os vôos da memória e seus augúrios...

17/11/2006

O dia e a noite (de Alma Welt)

Os últimos albores na planície
Costumam me levar à compreensão
Súbita e fugaz da imensidão
Contra o humano limite e superfície.

Eu sei, o sol é Deus e é visível,
Olho severo mas sensível e amoroso
Que doura o nosso mundo compreensível
Pra mergulhar depois no duvidoso.

E assim, o que o sol nos esclarece
O sono desmente ou desvirtua
E temos que rever o que parece.

Agora em suas sombras e estigmas
A noite das estrelas e da lua
Nos convida ao sonho dos enigmas...


(sem data)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O bosque da donzela nua (de Alma Welt)

Na floresta que é meu bosque para mim
Desde guria eu vou pelas amoras
E pelas matinais aves canoras
E as de quando o dia chega ao fim.

Mas é de noite que sou a sua Infanta
E só eu tenho a coragem de adentrá-lo,
Que ao povo, há de sempre apavorá-lo
Aquela fadaria que me encanta.

Mas ali me viram com as lanternas
Como donzela nua e exangue
A escorrer meu mênstruo pelas pernas.

Pois é essa a ousadia que perpetro,
E gerou a lenda de um espectro
Que mancha os cogumelos de seu sangue.

05/12/2003

domingo, 3 de maio de 2009

De eras, heras e medos (de Alma Welt)

"...Où sont les neiges d'antan?"
(Balada das Damas dos Tempos Idos -(François Villon)


As vetustas paredes desta casa
Guardam sonhos da farroupilha era,
Também medo tardio que extravasa
E se alastra agora como a hera

A recobrir daninha esta fachada
Tornando-a mais sombria que vital
E nada hospitaleira à convidada
Que eu trouxe da longínqua capital

E que de noite acorda e se me agarra
A debater-se qual barca em sua amarra
Na torrente dos soluços e das mágoas

Das prendas que qual "neves d’antanho"
Ora permitem degelar as suas águas
Pois que então o heroísmo era tamanho...

2004


Nota

Acabei de encontrar este soneto inédito que percebi corresponder aos primeiros tempos da estada de Aline na estância, quando ela ainda se aterrorizava com os ruídos e murmúrios noturnos do casarão. A propósito (ou não) a namorada paulistana da Alma teve um filho de nosso irmão Rodo e acabou voltando com a criança (Marco) para São Paulo, contra a nossa vontade (que a amávamos), depois de dois anos (vide o romance O Sangue da Terra, de Alma Welt, no blog com este nome). (Lucia Welt)

sábado, 18 de abril de 2009

O ninho da Salamandra (de Alma Welt)

Iremos lá, àquele Cerro, meu irmão,
Como fomos juntos às Missões,
Sete Povos, lembra? num verão,
Quando a lenda nos tocou os corações.

Mas ao Jarau iremos delirantes,
E assim encontraremos o caminho
E chegaremos à sala dos diamantes
Onde a Salamandra fez seu ninho.

E seguiremos, eu sei, e não malditos
Pois não somos movidos por ganância,
Mas pela graça de nossa leda infância.

Quanto ao ouro e o poder, estes gigantes
Não nos poderão deixar aflitos,
Que o tesouro vive em nós e vem de antes.


14/10/2006

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O Labirinto do Minuano (de Alma Welt)

Encontrei a passagem numa estante
Da fiel biblioteca e nosso gozo
Aqui no casarão, que num instante
Afigurou-se um labirinto perigoso.

Esta noite irei me aventurar
Pelo dúbio corredor mas instigante,
Não deixando todavia de me atar
À ponta de um novelo de barbante,

Mas temo que a passagem, por secreta,
Levará a imponderável metaplano
Que por certo nunca foi a minha meta,

E no centro do sulino labirinto
Estará o minotauro: o Minuano
Que, sim, me levará, eu bem o sinto.

03/11/2006

sábado, 28 de março de 2009

O vinho e o Graal (de Alma Welt)

Percorrendo em vigia meu vinhedo
Tive linda visão e inusitada:
Um cacho isolado qual segredo
Pois que sua cor era dourada.

"Um cacho de ouro!"- exclamei.
"Galdério! Vem ver o que encontrei!
Vê se é uma praga, anomalia
Que possa destruir toda a valia

Da safra e também do nosso esforço!
O cacho é pirata ou belo corso?
Deixo contigo juízo e decisão."

“Alma”- respondeu sábio o peão-
“Então não vês que o ouro é o sinal
De que temos o vinho e o Graal?”

(sem data)

Nota
Acabo de encontrar este curioso e encantador soneto, de acentuado pendor simbolista. E me lembrei de que na época, eu morando em Alegrete, ouvi comentários sobre o espantoso cacho dourado no meio do vinhedo, que se tornou uma das lendas da Alma e de nossa estância. (Lucia Welt)

segunda-feira, 16 de março de 2009

Onde vivem os deuses (de Alma Welt)

E eu cantaria o amor que me coubera
Ao nascer de novo nestes pagos
Isolados do mundo, noutra era,
Onde vivem os deuses e os magos.

Aqui me apaixonei por meu irmão,
Que como Eros piá vivia alado,
Sem dar-nos conta da cruel proibição,
Pois somente guiados pelo Fado.

Eis que num certo dia, aziago,
Fomos flagrados ao pé da minha Ara
Num lance que faria grande estrago

Não fora em nós a reverência e a fé
Nos nossos velhos deuses, coisa rara,
Que nos salvou o amor e... a alma até.

(sem data)

quarta-feira, 4 de março de 2009

Aqui estarei (de Alma Welt)

Aqui estarei, meu Rôdo, quando tudo
Naufragar em nós com o navio
Que é este casarão já quedo e mudo
A crepitar como uma vela sem pavio,

E nós, como sombras sorrateiras
Esgueirarmo-nos por estes corredores
Ou por este salão e suas soleiras
Que olharão para os últimos albores

Já a nos ver espectrais em cavalgadas
Ou mesmo a pé a vagar nas pradarias
Nas novas noites, eternas e tão frias...

Ai! Não mais claras manhãs, e orvalhadas,
Onde rindo perdoavas meus deslizes
E eu aos teus, por sermos tão felizes!

14/01/2007

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

O Congresso dos Elfos (de Alma Welt)

Esta noite irei de novo ao bosque
Pois senti o chamado dos meus elfos
Com as luzes que emanam do quiosque
Como outrora a pira lá em Delfos.

Devo juntar-me ao minúsculo congresso
De duendes e demais entes bisonhos
Pois há muito espero o seu regresso,
Ó tempo da alma e dos sonhos!

Mas a pequena rainha que preside
A reunião desses bons elementais
Não exclui o mal que ali incide,

Que por esses meu leito não deixava:
Pérfidos trolls e worlocks brutais,
Na erma noite que a neblina agrava.

(sem data)


Nota
Este soneto, como outros da Alma que se referem ao seu bosque(que temos aqui na estância) que nos era proibido em nossa infância por nossa Mutti, me fez recordar o belo e sinistro poema de Henry Treece musicado e cantado pela grande cantora folk Joan Baez nos anos 60. Reencontrei-o no You Tube. Vale a pena recordá-lo e comparar seu sentido com os sonetos da Alma sobre o tema:
http://www.youtube.com/watch?v=YI8O4uSVzO8

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Pôquer de Máscaras (de Alma Welt)


Alma-Desdêmona (desenho de Guilherme de Faria)


Pôquer de máscaras (de Alma Welt)

Em torno da mesa, mascarados
Camuflam os olhares e a esperteza,
Os meneios sutis, inusitados
Deste antigo pôquer de Veneza.

É pleno Carnaval, e os jogadores
Reunidos num salão abobadado,
Palácio de outra era, de outras dores,
Num tempo que parece retornado

Desdêmona passou de tranças feitas,
Feliz, antes da Noite das suspeitas,
E Giacomo, depois, como aprendiz

De aventureiro e sedutor empedernido
Sob a máscara de fálico nariz
Que tanto coração deixou perdido.

25/02/2005


Nota
Alma assistiu uma vez, em Veneza, em pleno Carnaval, num palácio sobre o Grande Canal, um tradicional jogo de pôquer mascarado, de que Rodo participou. Alma em longo vestido de época, armado, com magnífica máscara branca e um grande leque de plumas, deslisava por ali, à volta da mesa. Ela jamais se esqueceria dessa experiência que fez seu espírito vagar por outras eras, naquela misteriosa e romântica cidade. Pouco depois, retornada ao Brasil ela me declamou esse soneto. Agora, como estamos no Carnaval me lembrei dele e fui procurá-lo na montanha de papéis de sua arca. Encontrei-o afinal, oportuno, pois Rodo se encontra em Veneza e me enviou um postal dizendo que está participando novamente desse tradicional e exclusivo pôquer de máscaras, em que se senta ao lado de banqueiros, magnatas, e eventualmente, até... chefões da Máfia (não posso deixar que a preocupação me tome...) (Lucia Welt)

*Desdêmona passou de tranças feitas- Alma sugere com este verso que a mulher de Otelo, vagou por esse salão quando donzela, solteira (de tranças) feliz , antes de começar o tempo das terríveis suspeitas, dos cíúmes, de seu futuro marido, o Mouro de Veneza.

*Giacomo, depois, como aprendiz- Alma se refere ao famoso sedutor veneziano, Giacomo Casanova, do século XVIII, de época bem posterior à de Desdêmona (século XV), e que começou sua carreira de aventureiro ainda jovem na sua Veneza natal, nas mesas de pôquer, onde conseguia se aproximar dos nobres e da "elite" financeira, que logo o encarcerou, pois ele roubava no jogo com a ajuda das mulheres desses nobres, as quais ele seduzia. Casanova foi condenado à morte, mas conseguiu fugir da prisão sobre o canal (vide a "Ponte dos Suspiros") e ficou exilado de Veneza para o resto da vida, vagando pelo salões da Europa.
Postado por Lúcia Welt às 07:59 0 comentários

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Leda e o Cisne (de Alma Welt )


Leda e o Cisne- mármore veneziano

Leda e o Cisne (de Alma Welt)

Decidi experimentar volúpia nova
E encarnar princesas mitológicas
Acolhendo as entidades pouco lógicas
Que Zeus transfigurado punha à prova

Na doce e embevecida prontidão
Em tê-lo entre as coxas bem no meio
Ou como chuva de ouro no meu seio
Mesmo que ensopasse meu colchão.

Assim comecei pelo meu cisne
Que ganhara de meu pai, enternecida
Por sua beleza branca enaltecida

Em que senti das plumas como seda
Emergir rubro arpão sem que me tisne
As pétalas e encantos, como Leda...


(sem data)

A nuvem de Io

Zeus e Ío (1530), por Correggio (ativo a partir de 1514- falecido em 1534)

2
Depois do cisne, resolvi, uma por uma,
Desafiar Metamorfoses mais sutis
Pois há sempre a rota em que se ruma
E Zeus não lança mão de formas vis.

Como Danaé no estranho banho
Dourado que a veio iluminar
Assim eu mesma tive um ganho
Ao pedir ao meu amor pra me dourar.

Faltava agora por nuvem ser tomada,
E como nunca apreciei o “fumacê”
Não conseguia matar esta charada.

Então junto à cascata do meu rio
Envolta nua no vapor que ali se vê,
Fui possuída como a sonhadora Ío.

(sem data, circa 1999)

Nota

Percebe-se que o Mito da chuva de ouro de Danaé Alma resolveu com a simples urofilia, coisa que na verdade ela já conhecia bem com nosso irmão Rodo desde a infância. Note-se que urofilia ou urolagnia é uma prática sexual mais comum do que se pensa e conhecida popularmente como "banho dourado". Quanto à transformação de Zeus em nuvem para possuir a princesa Ío, Alma resolveu lindamente ao entregar-se ao seu amor em meio à neblina que se forma na nossa cascata, mais fortemente numa certa época do ano.(Lucia Welt)

sábado, 31 de janeiro de 2009

O casarão (de Alma Welt)


O casarão na noite- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 30x40cm


Meu casarão é vivo e tem história
Mas também tristezas e rancores.
Por trás de sua velhice e sua glória
Há paixões, a sede dos amores.

É de noite que arfando mostra vida,
Cobrando suas dores e falências...
E eu saio a vagar entre as hortênsias
No jardim espectral da velha Frida,

Pra só voltar ao leito quando exausta
E quando já os galos predominam
Sobre os rumores desta casa infausta.

Então eu me desnudo e os convido,
Amores que em torno os ares minam,
A repousar em mim o seu olvido....

07/06/2006

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Os encantos da alma (de Alma Welt)

Nas sombras cristalinas do meu bosque
Eu andei desde pequena solitária
E aprendi a ver as fadas num quiosque
E a rainha em sua forma vária

Que me chamava assim ao seu convívio
Pra me ensinar as coisas encantadas,
Longe da aridez e do oblívio
Das almas em que elas são negadas.

E eu ainda hoje me admiro
Do paradoxo da negação de tantos,
Já que à própria alma sobra encantos

Apesar de estar no mundo camuflada
A refletir no corpo quase nada,
A não ser num olhar e num suspiro...

09/11/2005



Nota

Por minha vez encantada, acabo de encontrar este soneto encantador da Alma em sua Arca inesgotável de inéditos. Este soneto me parece que já nasceu como um "clássico"...
(Lucia Welt)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

A Ilha dos Mortos- quadro de Arnold Boecklin


A Ilha dos Mortos- quadro de Arnold Boecklin 1827-1901


A Ilha dos Mortos de Boecklin (de Alma Welt)

Não pare de remar, ó meu barqueiro!
Faça jus à soma que lhe pago,
Não hesite perante o nevoeiro
Que já desce saudando o que aqui trago.

Ajude-me também co’este caixão
Pois sozinha não poderei plantá-lo
Num nicho desta ilha em solidão
Com só a minha dor a acompanhá-lo.

Ilha Fatal, eis que sou tripla refém,
De pé na proa, como tu a me alçar
Das águas que ousei atravessar

Desse Letes obscuro em que vogamos,
Com meu próprio caixão que me contém,
Nós três: um só, no barco que remamos...


18/01/2007

Nota
Acabo de descobrir este soneto na arca da Alma e que pela data foi escrito na antevéspera da morte da Poetisa. De profundo teor alegórico-metafísico, Alma parece ter interpretado o famoso quadro do Boecklin, que lhe inspirou o soneto, com o barqueiro, a figura de pé na proa e mais o morto dentro do caixão como sendo três faces do mesmo ser: o morto que chega por seus próprios meios à Ilha da Solidão.(Lucia Welt)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Las Brujas (de Alma Welt )


As três bruxas- desenho de Hans Baldung Grien 1480-1545(Albertina, Viena)


A noite do meu bosque é de bruxedos,
E me preparo para ver coisas sutis.
É lua cheia, de feitiços e folguedos,
Para além do jardim dos mal-me-quis.*

Como sonâmbula à floresta me dirijo
Atraída como mariposa ao lume,
E atingindo do mistério o esconderijo
Como um "montañero" alcança o cume,

Eis que com “las brujas” me deparo,
Aquelas que "no creo pero existen",
As três, que em orgia ainda persistem:

Duas jovens, uma velha, e, nada raro,
Como votiva tocha um urinol
Em chamas, como insólito farol...

14/06/2006



Notas
*mal-me-quis -Alma se referia assim à ala de margaridas plantadas no nosso jardim por nossa mãe, a "Açoriana" de difícil relacionamento com minha irmã. Alma acreditava não ser amada pela Mutti, e isso foi motivo de dor durante toda a sua vida, apesar de sua vocação (ou esforço) para a alegria. (Lucia Welt)

Por ter sido avistada nua (!!) no no seu bosque uma vez, Alma foi vista por algum tempo como feiticeira. Mas somente entre os menos generosos...

Mas se os leitores interessados quiserem saber e sentir um pouco mais o que eram as incursões da Alma no seu bosque, sugiro que assistam estas cenas do filme francês de 1956, La Sorcière (A Feiticeira) com a linda atriz Marina Vlady (que me fez lembrar a Alma) no You Tube

http://www.youtube.com/watch?v=KNntLHWaxgU

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

No Labirinto da Alma (de Alma Welt )


Cnossos- Creta (o palácio do Labirinto)

Pelos labirintos desta estância
Vagueio como outrora sob a luz
Agora com temor e esta ânsia
Que não obstante me conduz

Pelas sendas onde ontem fui feliz
E corria alada a colher flores
Para florir meu quarto de aprendiz
Da Poesia, do Amor e suas dores.

Como viver os dias que me restam?
É a pergunta recorrente, intrometida
No rol de pensamentos que me infestam.

Ruivas colunas, galgando patamares,
Ruivos cabelos flamejando pelos ares,
Eis a Alma... que corre... já ferida!

18/01/2007

_______________________

Nota
Estarrecida acabo de encontrar este soneto inédito da Alma em sua arca do sótão, em que a imagem do Labirinto se confunde com a escadaria de colunata vermelha do palácio de Cnossos, em Creta, que nitidamente é o cenário ou metáfora que perpassa o poema, de dolorosa premonição da morte. Na verdade, cheguei rapidamente a essa interpretação porque Alma tinha um cartão postal dessa escadaria ladeada de colunas ("ruivas" como os seus cabelos) pregado com alfinete num painel de cortiça, de recordações de viagens e amigos, no seu quarto. Alma acreditava ter já vivido em Creta nesse palácio do Labirinto. Mais uma vez tive que chorar... (Lucia Welt)

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Como conheci Rafisa (de Alma Welt)

Pela verde amplidão desta campina
Que se estende desde os pagos castelhanos
Até este quintal da minha vinha,
Vinha vindo uma carroça de ciganos.

Então a mula estacou extenuada
(seu nome logo eu haveria de escutar)
E da boléia desceu (eu deslumbrada)
A cigana que me caberia amar.

E com dois passos, lenta em sua nobreza,
Parou diante de mim na minha varanda,
Inusitada curvando um dos joelhos

Numa vênia como se eu fora a princesa,
E num gesto apresentando sua Miranda:
"Ela me trouxe a ti por entre espelhos!"


(sem data)


Nota:
Depois de algumas semanas sem poder pesquizar a montanha de textos da Alma na sua arca do sótão, da qual creio que já compilei, digitei e publiquei pelo menos a metade nestes 25 blogs, encontrei este soneto em manuscrito, sem título, que percebi que não havia visto até então, e que me pareceu importante pois conta como conheceu aquela que viria ser uma amiga muito especial (uma amante mesma, sejamos claros...), a cigana Rafisa, referida em tantos belos sonetos e que tendo contado à minha irmã aquele belo e trágico episódio da "coronelinha", que a Alma contou ao cordelista Guilherme de Faria, este escreveu sua obra-prima de cordel: "Romance da Vidência". Vide o blog:
www.guilhermedefariacordel.blogspot.com

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Amor sem rosto (de Alma Welt)

Meu amor, a ti me dirigindo,
Saiba que te não personaliso,
Ao menos por enquanto, o que é lindo,
Pois és Amor, és Eros, Dioniso...

Bah! Quisera manter-te assim sem rosto,
Já que sendo deuses pouco valem
Os traços de uma máscara ou de um gosto
Que o Tempo não retém e que se perdem.

Como um nume, ou príncipe, quem sabe,
Toma-me nos braços que sou Alma
E minha alma no corpo já não cabe...

E leva-me, que me finjo adormecida,
Com aquela volúpia nada calma
Da guria que fui... cheia de vida!

15/01/2007

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Sons da noite (de Alma Welt)

As paredes vetustas desta casa
Trazem-me os sons de outra era
E cheios da dor que reverbera
Como um ruflar de negra asa

Distingo nas noites os gemidos
Das filhas do pobre Valentim,
Os gritos da viúva, os latidos
E logo o uivo de um fiel mastim

Ali, ao pé do corpo que pendia
Da trave do telhado, assim, no sótão
Onde depois o belo Rôdo dormiria

Impávido e inocente o meu irmão,
A embalar seu sono a algaravia
Do sussurrar de um proibido coração.


11/12/2005

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

A fada da mente (de Alma welt

Esta noite irei ao meu pomar,
Apesar de escura e enevoada.
Ali estarei com minha fada
Com quem combinei de me encontrar.

Rôdo, mas só ele, está ciente,
Pois os outros não podem suspeitar.
Estou em perigo, ultimamente,
Há quem queira mesmo me internar.*

Na minha "Grande Noite de Walpurgis",*
Quando terminei por levitar,
Todos os deuses vieram me encontrar...

Mas o espanto agora é diferente:
"Ó minha fada, eu sinto quando surges
A partir da minha própria mente!"

18/12/2005

Notas

*"Grande Noite de Walpurgis" - Alusão à "Noite Clássica de Walpurgis", cena apoteótica, magistral e iniciática do Fausto, de Goethe. Trata-se de uma grande reunião ou orgia dionísiaca, de todos os deuses da Grecia Antiga, a que Fausto assiste com a ajuda de Mefistófeles. A cena é longuíssima, extremamente erudita e cheia de ocultismo. Há mesmo estudiosos que se debruçaram anos a fio sobre o estudo dessa parte do Fausto, inclusive teses de doutorado.
Alma assim se refere à sua experiência mística pagã, de invocação mágica dos deuses e numes do Pampa, diante de sua macieira sagrada do pomar, que está descrita magistralmente em certo capítulo do seu romance A Herança, e sucintamente no seu soneto "Todos os deuses", aqui postado. (lucia Welt)

* ... me internar"- Alma temia ser internada como afinal realmente o foi, numa Clínica pouco depois da data deste soneto. Mas não é verdade que queríamos interná-la. Fomos pegos de surpresa, quando ela sumiu num sábado e foi encontrada por nós que a procurávamos preocupadíssimos, em lamentável estado vagando no bosque, fora de si, com o vestido rasgado e arranhões nos seios e nas coxas, que suspeitamos como vestígios de estupro.(Lucia Welt)

domingo, 24 de agosto de 2008

Exorcizando (de Alma Welt)

Matilde veio logo me avisar
Que uma sombra rondou o casarão
E parou de frente ao nosso sótão,
Depois partiu no rumo do lagar.

"É o Valentim!" ela adverte-
"Que olhou para onde se enforcou,
Voltou para onde o vinho verte
E ali novamente se afogou."

E eu, a quem não custa espicaçar,
Saí no temporal e fui às uvas
Para o tal fantasma exorcizar:

"Perdoa, a ti me dou, tardia embora,
E me desnudo sob o frio de tuas chuvas
Que são as tuas lágrimas de outrora!"

(sem data)


Nota

Valentim- Para quem ainda não sabe ou não leu o romance autobiográfico da Alma "A Herança", Valentim Ferro foi o último proprietário gaúcho autêntico de nossa estância (antiga Querência Farroupilha, agora Sta Gertrudes) e que endividado acabou vendendo sua propriedade para o nosso avô Joachin Welt, em seguida por desgosto enforcando-se no sótão do próprio casarão. Alma conta como nosso avô narrou a ela ter encontrado o corpo de Valentim, ainda quente como o mate fumegante esparramado da cuia (e bomba) sob os pés do enforcado, este todo ataviado nas sua melhor bombacha, botas, esporas, faixa, chapéu, lenço vermelho farroupilha, e tudo.
Alma dizia ter tido vários encontros com o espectro do infeliz proprietário autêntico derradeiro, com o qual ela acreditava termos uma dívida insaldável, usurpadores que éramos desta propriedade farroupilha tradicional, nós, "boches arrivistas" que viemos plantar uvas numa terra tradicional de gado, charque e mate. (Lucia Welt)
Postado por Lúcia

domingo, 10 de agosto de 2008

O Portal (de Alma Welt)

Saí de manhã com cuia e bomba
A vagar por minhas velhas trilhas
Até rondar o bosque em sua lomba
Que nasce no sopé destas coxilhas.

Ali então penetrei chimarreando
Aquecida por dentro pelo amargo
Para ouvir a natureza despertando
E o meu alento bem mais largo.

E logo tomada de entusiasmo
Me pus a correr por entre os troncos
E a girar no centro de um orgasmo

Até desfalecer numa clareira
Cercada por seres nada broncos,
Abertos o Portal e a Fronteira...

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A névoa e a Alma (de Alma Welt)

Quando a névoa ainda não se alçou
E paira sobre a relva confundindo
Céu e terra como quando começou
O mundo e Deus ainda estava urdindo

A tessitura de seu reino endiabrado,
Depois cheio de tesouros e magia,
Eu sinto que pertenço a este prado
E nutro-me de sua nostalgia.

Mas logo em alegria me desnudo
Pois orvalhada já em minha roupa
Posso sentir-me parte disso tudo:

De Deus o puro caos primevo e vago
Quando tudo ainda era parte dessa sopa
Do grande caldeirão do Eterno Mago...


(sem data)

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Palavras à cigana (de Alma Welt)

Rafisa, lê depressa a minha palma
Mas não pares no meio da leitura.
Sempre o fazes como se uma ruptura
No fio do destino desta Alma.

Eu vejo como fechas minha mão
E o disfarças com um beijo ou sorriso.
Mas não conténs, cigana, o coração
E teu peito que ofega, em prejuízo

Do segredo do que é meu e tu me deves,
Pois se és vidente e quiromante
Honra a tua fama, a mal não leves,

Vai, revela tudo, não importa
Se a Morte for um hóspede galante
Que está prestes a bater na minha porta...

05/01/2007

O claro e o escuro da Alma (de Alma Welt)

Amanhã verei meu ser refeito
E envolto em aura, libertado,
Serei o ser que sou, o ser eleito
De mim mesma, aceso, iluminado.

Farol na noite eterna de esperança
Ou sol no dia claro sempiterno,
O timbre escolhi eu desde criança
Ao escolher o amor, o bom e o terno.

Mas, bah! se o Cerro esfria e escurece
E pelas faldas onduladas de coxilhas
Do Jarau o minuano escorre e desce,

Da alma o lado escuro me fascina
Ao perceber o quanto, sim, ele me anima,
Esse contraste que produz as maravilhas!

(sem data)

Noite Xamânica (de Alma Welt)

Quando a noite é quente em meu jardim
Me ponho na varanda, excitada,
E logo vou sair fora de mim
Para livre me sentir, e mesmo alada.

E vôo, ah! eu vôo sobre as flores
Pra de cima divisar o meu quiosque
Em que um dia iniciei-me nos amores
Pra depois consagrá-los no meu bosque

Onde então me torno loba ou cadela
Ssschhh! a grande coisa, um sábio disse*,
Exige que jamais falemos dela,

Pois me sinto voltar ao animal,
Enquanto vultos negros como piche,
Com seus lumes já me espreitam como tal...

29/06/2006

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Reencontrando o general (de Alma Welt)

Amarrei minha montaria no mourão
Adentrando então a estância estranha.
No peito eu sentia o coração
Pulsando como os palpos de uma aranha

Que aguardasse a si mesma como presa
No centro de uma teia que era o mundo.
E assim eu caminhava muito tesa,
A sentir que o momento era profundo.

Então me vi diante da varanda
Do herdeiro de meu Netto general,
Que tirou o chapéu, como se manda

E mostrando os cabelos cor de nata
Disse: "Voltaste, minha princesa, meu Graal,
Que te espero, há muito, desde el Plata."

(sem data)

terça-feira, 22 de julho de 2008

A fronteira (de Alma Welt)

Venham por aqui, ó Lucia, ó Rodo
E também a Solange, o bando todo...
É uma senda estreita no final
Que leva à Salamanca do Jarau!

É, sim! Eu descobri aqui na estância
O tesouro do gaúcho, é vero! juro!
Na entrada, sei, é um pouco escuro
Qu'isto não é nenhum jardim da infância.

Mas olhem, prometam, não espalhem,
A Mutti não pode saber disso,
E as preces da Matilde nada valem

Se formos proibidos de brincar
E descobrir o mundo fronteiriço
Que há além das uvas no lagar...

11/05/2006

terça-feira, 8 de julho de 2008

Memória do bosque sagrado (de Alma Welt)


Bosque Sagrado (Heiliger Hain) 1886- Arnold Boecklin (1827-1901)- Hamburger Kunsthaller


Memória do bosque sagrado (de Alma Welt)

Esta noite irei ao meu pomar
Acender a pira dos meus deuses
Ali eles verão eu me ajoelhar
Como outrora no bosque de Elêusis.

E ao ver o fumo branco ascender
Do nosso mate em proporção secreta,
Eu me regozijarei ao perceber
Que os deuses aceitaram minha oferta.

E então eu abrirei meu coração
Para que vejam o ardor do meu desejo
Que não exclui pureza e devoção,

Pois quero somente preservar
A união de todos em que vejo
A mesma solidão, o mesmo olhar...

24/12/2006

Nota
Encontrei na arca da Alma esta reprodução de quadro de Arnold Boecklin do acervo do Hamburger Kunsthalle, em cartão postal onde no verso ela escreveu este soneto na véspera do seu último Natal. Como podem perceber Alma acreditava ter, numa de suas encarnações, vivido em Elêusis onde fora uma sacerdotisa órfica, do culto de Mistérios daquela doutrina reencarnacionista do século VII A.C., na Grécia. (Lucia Welt)

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Meu trem fantasma (de Alma Welt)

Venham formas-pensamentos, devaneios,
E invadam-me de noite o casarão!
Meus amores estão longe, e os anseios
Preservam-me da negra solidão.

Mas o vazio... a custo eu o evito
Pois sei que ele, só, pode matar-me.
Venha aquele trem, pois, assombrar-me
Com seus brancos fumos e o apito

Naquela plataforma enevoada
Onde sempre deixei os meus queridos
Para vê-los partir em revoada

Envoltos no vapor de suas glórias,
Me deixando aqui, como os banidos,
Num comboio eterno de memórias...

29/12/2006


A título de curiosidade republico aqui este soneto da série Pampiana, para evidenciar a recorrência dessa imagem da estaçãozita e do trenzito maria-fumaça que serve nossas terras e que era tão querido por minha saudosa irmã. (Lucia Welt)

O trem (de Alma Welt)

(193)

Quando aqui chegava o nosso trem
Na pequena estação perto da estância
Era uma festa enorme para alguém
Que amava os signos da infância.

Os ruidos, silvos e a fumaça,
O vapor envolvendo qual neblina
O vulto espectral de uma menina
Muito branca atrás de uma vidraça...

Era eu que olhava e que me via
Como sempre em tudo em minha vida
Narradora e personagem escolhida

E que esperava a mim na plataforma
Para abraçar-me em meio a algaravia
Daquela multidão quase sem forma.

17/11/2006

terça-feira, 1 de julho de 2008

O labirinto e o bosque (de Alma Welt)

No jardim da minha avó alsaciana,
Frida, um labirinto ali havia,
Que Matilde em língua castelhana
Dizia que "aí uno se perdía..."

Eram sinistros corredores de uma sebe
Odorífera, de uma espécie de pinheiro
De folhagem crespa cujo cheiro
Era feito pra atrair como uma febre.

E eu, por ter medo de adentrá-lo
Pedi para o Vati desmanchá-lo
E ali plantar um bosque bem fechado

Que crescendo, vem a Mutti e nele planta
A idéia, bah! de um lobo bem malvado*
Que ali rondava à espera desta Infanta...


09/11/2006

_____________________________________

*Nota da editora

Relembrando um outro soneto em que Alma fala desse lobo:



De Lobos e guris (de Alma Welt)

(n° 196 dos Sonetos Pampianos)


Minha mãe dizia haver um lobo
No bosque aqui perto e emboscado
E que eu deveria ter cuidado
E nem sequer ir ali com o meu Rôdo,

Pois meu irmão, guri bem destemido,
Não seria páreo pro vilão
E que depois de assado e comido
Eu seria a sobremesa alí à mão.

Mas a curiosidade era mais forte
E eu entrava com ele ou sozinha
Embora jogássemos com a sorte

Pois a verdade era que eu creía
Haver o lobo que comia criancinha,
E até hoje ainda creio: o lobo havia.

13/01/2007

domingo, 29 de junho de 2008

O Quo Vadis da Alma ( de Alma Welt)


Escultura em bronze de artista anônimo (não identificado, e infelizmente de segunda categoria) que ilustra a cena do martírio de Lígia no Coliseu, do romance Quo Vadis, de Henrik Sienkiewsky, que inspirou este soneto inusitado da Alma.(coleção Flávio Pacheco, São Paulo, SP, Brasil)


Procuro encontrar o meu segredo
Aqui mesmo no meio deste Pampa,
Mas no triângulo formado pela guampa
Do jardim, o pomar e o vinhedo.

O casarão é o fulcro ou mesmo a testa
Do touro em que se atam meus delírios
No dorso, como Lygia em plena festa
De sangue, no auge dos martírios

Num Coliseu desfalecida e muito alva,
Por meu Rodo barrado como o Urso,
O fiel gigante ruivo que a salva

Desse grande auroque da Germânia:
Meu fado belo e atroz como o recurso
Da Poesia que meu dorso afaga e lanha...


(sem data)

___________________

Nota da editora:

Este curioso soneto de exacerbado cunho simbolista, encontrado recentemente, solto, entre os papéis da Alma, revelam a ambigüidade de sentido que ela atribuía ao seu dom da Poesia, afago e martírio ao mesmo tempo, a ponto de se sentir como a heroína germânica e cristã, Lygia, mártir por um triz, amarrada nua nas costas de um grande touro (seu destino), imagem célebre saída do grande romance Quo Vadis (Quo Vadis, Domine? "Aonde vais, Senhor?") do polonês Henryk Sienkiewics, que Alma leu quando adolescente. (Lucia Welt)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Lembrança da avó Frida (de Alma Welt)

Às vezes me lembro da avó Frida
Com suas casquinadas feiticeiras
Da boca rasgada qual ferida
E face sulcada como leiras,

Longos cabelos brancos desgrenhados
Nunca presos com o coque das avós,
Mas soltos, secos, mal lavados
Sobre espáduas curvadas e com nós.

Mas, bah! suas estórias pitorescas
Plenas de uma veia impagável,
Nas suas narrativas picarescas

Daquele portento de Sodoma,
O ancestral Gottfried condestável,
Bem cedo retiraram-me a redoma...


14/11/2006

sábado, 29 de março de 2008

A noite dos vampiros (de Alma Welt)

Esta é a noite dos morcegos
Que cobrem o céu da pradaria
Com seu vôo em massa, nada cegos
E com única e formal sabedoria.

Mas estes não são os de temer,
Que estão aqui pelos insetos,
Mas sim os que posso perceber
Arrastando-se nas asas e repletos

Do sangue dos nossos bons novilhos
De que lambem as veias seccionadas,
Disfarçados e sinistros peralvilhos.

E é nas noites perigosas dos vampiros
Que me foram proibidas as entradas
No bosque dos segredos e suspiros...

(sem data)

sábado, 15 de março de 2008

Canto da lua pálida (de Alma Welt)

Vaga a vaga lua após as chuvas
No meu pampa como barca solitária,
Nave fantasma, revolta e passionária
Em farrapos sobre mar das minhas uvas.

Então saio pro jardim, vou ao vinhedo
Ao encontro da nave que me anima
A deixar-me lunar em seu segredo
Para saber o fim que me destina

Pois com meus alvos braços estendidos
Para o alto clamo a indagação
De quais os meus sinais e seus sentidos

E antes que a clareza se me esvaia,
Meus joelhos dobram e vou ao chão
Enquanto a lua pálida desmaia.


08/01/2007

terça-feira, 4 de março de 2008

Vinhedo amargo (de Alma Welt)

Havia aqui em nossa estância
Uma jovem peona colhedeira
Que amava um guri desde criança
Mas os pais a mantinham na coleira.

A verdade é que mesmo vigiados
Eles conseguiam se encontrar
Na hora da colheita ou dos cuidados
No meio do vinhedo, para amar.

Mas morto com um tiro no seu peito
Eis que o rapaz é encontrado
E o pai da moça foi suspeito,

Até que a guria tão sofrida
Revelou que outro era o culpado:
O irmão que a amara toda a vida.

(sem data)

segunda-feira, 3 de março de 2008

As ausências do Galdério (de Alma Welt)

Galdério, factotum incansável,
Vem ultimamente se ausentando
Com a sua charrete indispensável
Nos tempos do Vati aqui reinando.

Então hoje cedo fui mais fundo:
"Galdo, me permite perguntar
O que tanto fazes lá no mundo
Onde "gáltcho" como tu não tem lugar?"

"Não foste tu mesmo que disseste
Que querias morrer sem mais deixar
A planura onde está tudo que preste?"

Mas o gringo sério logo emenda:
"Princesa, tenho ido alimentar
O peão de quem mi madre foi a prenda."


09/11/2006

De sombras e aromas (de Alma Welt)

As sombras do passado desta estância
Continuam a crescer e a ameaçar.
As noites geram medos e a ânsia
De uma antiga dívida saldar:

A do boche, o nosso avô Joachim
Que ao comprar a terra em desgraça
Deixou pros meus irmãos e para mim
Um patrimônio com peso de uma raça.

Aqui acamparam os farroupilhas,
Nesta mesa além do clã do Valentim
Sentou Bento Gonçalves com as filhas.

Sete mulheres deitaram-se nos quartos
E ainda sinto o cheiro do alecrim
E os gemidos dos amores e dos partos...

05/12/2006

domingo, 2 de março de 2008

O cavaleiro (de Alma Welt)

Quando guria eu andava pelo prado
A colher flores do campo, já contei,
Mas algo aqui eu nunca revelei
Que é como encontrei-me com meu Fado.

No meio da extensa pradaria
Vinha vindo o cavaleiro embuçado,
Até que ao deter a montaria
Pude sentir-lhe o hálito gelado:

"Alma, continua a colher flores,
Já que tens o dom da arte e da poesia,
Mas não terás sossêgo nos amores."

"Com convivas, trinta e cinco, e uma vela,
Espera-me à mesa, eu volto um dia
Pra levar-te, prenda minha, nesta sela".


02/01/2007

________________________________

(Republicação):

Visão (de Alma Welt)

Ser a musa eternizada do meu pampa!
Cantar, celebrar e endoidecer
De tanto amar até saltar a tampa
Do coração e da mente, e então morrer!

Nua, estranhamente, sobre a mesa
Estendida me vejo, uma manhã:
Um desfile silencioso me corteja
De peões, peonas e algum fã.

Mas olho o meu corpo de alabastro,
Absurdo e belo ali, e não à toa
Eu noto algo nele que destoa:

Sobre a alvura do pescoço bailarino
Uma faixa vermelha como um rastro
Da corda que selou o meu destino...

03/01/2007

sábado, 1 de março de 2008

À deriva (de Alma Welt)

Altas horas, silêncios rumorosos
De grilos, de sapos e os estalos
Do casarão com seus nichos tenebrosos
Por onde o Tempo escorre pelos ralos.

A casa arfa, suspira, sofre e geme
Com o peso de sua circunstância.
Como um barco náufrago, sem leme,
Que já não disfarça a sua ânsia,

A ausência do piloto é um mistério...
A poetisa, o jogador e a cosinheira
E um contra-mestre com nome de gaudério

Somos pois os tripulantes que vagamos
Dentro de uma nave sem esteira,
Não sabemos mais quem somos e onde vamos.

15/01/2007

Vozes no casarão (de Alma Welt)

Esta noite ouvi tristes lamentos
Pelos corredores desta casa.
Estava eu imersa em sentimentos
E pensei: "É minha alma que extravasa."

"Sou eu, sempre eu mesma, vem de mim!
Meu ser carrega a dor do mundo
Junto com o seu amor sem fim
Vindo do meu cerne mais ao fundo."

Mas o som parecia vir do ar
E outro que não a minha voz,
Não me deixava me enganar:

Era o cantochão da Açoriana
Confrontando o "lied" dos avós,
A confundir esta Alma pampiana...

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

"Sonho de uma noite de verão" (de Alma Welt)

Dirijo-me ao bosque em plena noite
Vestida com o branco da minha pele
Esperando que a lua não se afoite
E somente o luar ali me rele.

Vou encontrar Aline, minha parceira
Que me espera linda e nua como eu,
E reparo numa sombra que se esgueira
Para vir espiar nosso himeneu.

Nossas bodas celebramos, dionisíacas,
E não tarda a entrar nosso cortejo
Onde dançam vãs e afrodisíacas

Outras noivas do deus acompanhado
De seu lindo séquito sem pejo
Que estabelece na noite o seu reinado.

(sem data )

A Ofélia dos pampas (de Alma Welt

Contemplativa mais a cada lua,
Tomada por estranha nostalgia
Me ponho na varanda qual coxia
De um palco onde o coração atua.

E me vejo qual Ofélia coroada
De flores, entoando um triste canto
Mais veemente que o perdido pranto
Para morrer de mim tão afogada!

E nem falta o príncipe, qual seja:
Hamlet dos pampas, ah! tão puro,
Que como monja e amante me deseja.

Não direi a tragédia com que arca,
Que sendo irmão caminha sobre o muro
Dos fantasmas desta bela Dinamarca...

28/11/2006

Soneto dos Amores Idos (de Alma Welt)

Amores idos vêm durante a noite
Como bando de falenas no meu sonho
E esperam que em seus vôos eu me afoite
E siga-os ao seu vale tristonho

Onde vagam sonânbulos no exílio,
Perdidos qual cometa em Branca Via
Ou como aquele um, pródigo filho
Que espera ser mimado todavia.

E eu os acolho no meu seio
E a cada um consolo, ai de mim!
Que a mim mesma consolo nunca veio...

E a todos eu garanto o meu amor
Que nunca do meu peito (ah! que dor)
Apagarei, fiel que sou até o fim!

27/11/2006

Soneto da Alma nadadora, ou A nereida dos pampas ( de Alma Welt)

Meu Pampa, oceano dos amores
Que me viram infanta nua nestas plagas,
Singrando entre as ervas, entre as flores
No jardim ou nas coxilhas como vagas

Que minh'alma nadadora acompanhava
Com o olhar e o coração mergulhador,
Imersa que ao nascer já me encontrava
Nas ondas de um mar encantador...

Aqui nesta soleira estou sentada
Como atenta salva-vida numa praia
A olhar o horizonte que desmaia,

Ou sonhando qual nereida num rochedo,
Que é esta casa-grande naufragada
Num mar de fantasia e engano ledo.

28/11/2006

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Fogos-fátuos (de Alma Welt)

Esta noite irei ao cemitério
Para ver os fogos-fátuos lampejando;
Os peões temem muito o seu mistério
E acreditam que são almas vagando

Fugidas dos túmulos, seus leitos
Que anseiam deixar definitivo
Para estar conosco por motivo
De recuperar lares desfeitos.

Pelo sim, pelo não, estou com medo
Mas a curiosidade é maior
E nunca gostei de dormir cedo.

Mas, bah! encontrar a Açoriana,
Sua chama sofrida, sem calor,
Me faz sentir-me um tanto leviana...

O punhal nas águas (de Alma Welt)

Com meu Rôdo como sempre mergulhei
No poço da cascata esta tarde
E nas águas transparentes encontrei
Um punhal de prata de "compadre",

E o mano diz ser lance muito antigo
Que fazia um "gaucho de honor"
Que tivesse sido salvo por amigo
Cuja arma tivera mais valor.

E lembrei-me então da narrativa
De um velho boiadeiro meu vizinho
De como o pai deixara a vida ativa

Por ter ficado eterno devedor
De um que de seu filho era padrinho,
E salvara de si mesmo em dor de amor.

(sem data)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Retorno ao bosque (de Alma Welt)

Atravessando o bosque tão amado
Me embeveço com a sua maravilha:
Musgos, líquens, o solo alcatifado
Que esconde a vida que fervilha.

Ali os cogumelos... e esses gomos
Ou orelhas recobrindo velhos troncos
Onde se escondem eles, bons gnomos,
Quando fogem dos trolls, aqueles broncos.

E de repente o pássaro ignoto
Que só canta quando piso nessa relva
Alerta-me os perigos que não noto

Pois o lobo pela Mutti encomendado
Quando eu era guria nessa "selva",
Deve ainda rondar esfomeado...

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Fadarias (de Alma Welt)

É de noite e eu saio do meu quarto
Atravessando as sebes prateadas,
A lua está imensa e em parto
E as fadas são parteiras dedicadas.

Hoje é das noites mais sagradas
E teremos pirilampos e bruxedos,
Duendes, fadarias, mascaradas
E talvez se criem mais segredos.

E me ponho nua assim banhada
Pela luz que me deixa siderada
C'um olhar que a própria noite vidra.

Então, francamente erotizada
Me agacho urinando como a cidra
Que evola seu perfume extasiada...


01/11/2006

sábado, 23 de fevereiro de 2008

RIP* (de Alma Welt)

Vem por aqui, Galdério, logo à frente
Vou te mostrar o que encontrei:
Uma cruz estranha que nem sei
Se é cristã ou coisa diferente.

Vê, gravada nesta laje, aqui, assim,
Algo muito gasto está escrito.
Será o túmulo violado e proscrito
Do antigo estancieiro Valentim?

RIP está gravado e se percebe,
O resto é posterior, mal redigido,
E suponho por alguém que ainda bebe

O vinagre do que, mal digerido,
Não sei, Galdério, mas o sinto,
Deixou seu travo em nosso vinho tinto.


(sem data)

*RIP- iniciais do mote latino "Requiescat In Pace" (Repousa em paz) que antigamente era gravado em alguns túmulos.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Vem, meu leitor (de Alma Welt)

Vem, meu leitor, voa comigo
Por sobre a minha estância encantada,
Há muito a mantenho iluminada
Pelos melhores versos que consigo.

Sei que podes vê-la em tua mente
Sendo, pois, meu hóspede querido,
Levar-te-ei pelo jardim florido
E depois talvez a coisa esquente

Quando me encontrares no pomar,
Logo no vinhedo e no lagar,
Depois subindo ao sótão de noitinha

Pra veres onde flui minha poesia
Se achaste minha jornada comezinha:
Noites nuas perpassadas de magia...


07/06/2006

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Sendas farroupilhas (de Alma Welt)

Caminho pelas sendas farroupilhas
Que ainda se vêem aqui no prado,
E serpenteiam servindo como trilhas
Para os peões de hoje e nosso gado.

E me vejo de repente acompanhada
De visões dos nossos companheiros
Montados, zurzidos por pampeiros
A procurar a sua última invernada

Logo sofrida, espectral, penada
Pois que nunca houve paz impune
Pros que vivem e morrem pela espada.

Então volto ao casarão atormentada
Como alguém que a guerra ainda pune
Com os ecos da última emboscada...


14/01/2007

domingo, 17 de fevereiro de 2008

De laços e espectros (de Alma Welt)

Um espectro percorrendo o casarão
Despertou-me de um sonho agitado.
Eu sei que é o Valentim, o enforcado
Que volta a assombrar nesta estação.

E vou ao seu encontro, temerosa
Mas tentando controlar-me, bem durona,
Pois preciso convencê-lo c'uma prosa
A voltar para a sombra, a sua zona.

Mas, bah!, eu sei que sou suspeita,
Sou a neta predileta, na verdade,
Do homem que lhe fez maior desfeita

Ao cobrar-lhe a dívida fatal
Fazendo-o perder a propriedade
E ajeitando-lhe um laço cervical.

08/10/2006

Halloween (de Alma Welt)

É noite de bruxas e abantesmas.
Não me agüento e preciso ir ao jardim
Confiante em minhas fadas benfazejas
Pois acredito que trago o bem em mim.

Assim, saio em lençóis meio enrolada,
Pés descalços (às vezes saio nua)
Para ver de perto a cavalgada
E esse desfile que a Noite perpetua.

Ali voa uma velha na banheira,
Adiante a bela em pêlo acompanhada
Por um lobo e uma casamenteira...

Ah! A multidão que se abre em alas
De mulherio louco, sublevada
Acena para mim pra acompanhá-las!


31/10/2006

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

A Carruagem (de Alma Welt)

(Este é o último soneto da Alma, escrito na véspera de sua morte.)

Um piano toca no salão!
Ah! e não fui eu que coloquei
Um CD ou um velho long play,
Talvez seja o Vati, e então...

Ele voltou! Sim, ele me quer!
Vou ao seu encontro e sou mulher!
Sim, ele vai ver agora sou
Pelo menos a guria que sonhou.

Olha, Vati, há muito não me vias,
Mas de verso em verso muito errei
Pelo mundo, a viajante que querias...

E agora, com toda esta bagagem,
Leva-me contigo que eu irei
Quietinha, assim, na carruagem!

19/01/2007

Às águas do meu poço (de Alma Welt)


Ofélia ou A morte de Alma Welt- óleo s/tela de Guilherme de Faria, 100x140cm, coleção Fernando Carrieri, SP, Brasil


Ele me espera, eu sei que morrerei
Sob a face do meu lago, tão serena.
Aqui eu fui feliz como nem sei,
Aqui eu mergulhei desde pequena.

Sou a Yara nua do meu poço:
Aqui fui cobiçada em minha pureza
Fui ali tomada com rudeza,
E continuo pura, sem esforço.

Nada tive que cobrar da natureza,
Nada tenho a reclamar do meu destino...
Sou Alma, a poetisa, e sou a mesma

Guria branca de gênio sonhador
Cuja vida haverá de ser um hino
À beleza, à liberdade e ao amor!

01/01/2007

Visão (de Alma Welt)

Ser a musa eternizada do meu pampa!
Cantar, celebrar e endoidecer
De tanto amar até saltar a tampa
Do coração e da mente, e então morrer!

Nua, estranhamente, sobre a mesa
Estendida me vejo, uma manhã:
Um desfile silencioso me corteja
De peões, peonas e algum fã.

Mas olho o meu corpo de alabastro,
Absurdo e belo ali, e não à toa
Eu noto algo nele que destoa:

Sobre a alvura do pescoço bailarino
Uma faixa vermelha como um rastro
Da corda que selou o meu destino...

03/01/2007

Elêusis (de Alma Welt)

Estrelas do meu Pampa, peregrinas
Que eu via do jardim anoitecido
Onde colhera as flores pequeninas
Por entre as quais singrara meu vestido

De guria de olhar indefinível
E branca como um vaso de alabastro
Que meu pai votara ao grande astro
No teatro de uma ópera invisível

Encenada naquele nosso Elêusis
Que fizéramos desta bela estância
Onde o Vati me consagrou aos deuses...

Estrelas, sou poeta mesmo agora
Fiel ao meu sonho da infância
Pois que sua magia ainda vigora!

10/12/2007

O nó e o muro (de Alma Welt)

Este casarão que chora e geme
Nas noites desta estância tão sofrida
É agora o companheiro da minha vida
Como um barco à deriva já sem leme.

E não parece dirigir-se ao futuro
Mas arrastado em voragem de retorno
Ao porto de partida junto ao muro
Que separa o jardim do prado em torno,

Ali onde o nó foi enterrado
Com que enforcou-se o Valentim
Que era o vero estancieiro despojado,

Que perdeu pro meu avô a sua estância
Em que esta branca Alma vem porfim
Viver a sua busca e sua ânsia...


15/01/2007

A Vivandeira (de Alma Welt)

Pelas trilhas centenárias do meu prado
Por onde desfilam farroupilhas,
Suas prendas, chinas, piás e filhas
Que ainda hoje pisam no relvado

Como falange de espectros penados
Eu os vejo quando a lua é propícia
E a brisa envia-me a notícia
Do etéreo desfilar de rebelados.

Então, eu montada em minha égua
Corro pra alcançar o homem certo
Entre Bento, Canabarro e o bravo Neto*

Mas ao lado do Giuseppe e sua guarda,
Vivandeira volto lá pra retaguarda,
Ao ver a bela Anita em sua trégua...*

14/01/2007

Minha hospedagem dos poetas mortos (de Alma Welt)

Aqui, no Pampa desta Alma
Os poetas mortos vêm me ver
E hospedam-se com prazer e calma
No casarão que ama os acolher.

E então reunidos no salão
Ou na biblioteca a conversar
Param um momento a confusão
Para em silêncio me ver atravessar

Sorrindo à direita e à esquerda,
Mas na verdade nua como Helena
Para assim poupar-lhes a desfeita

De recebê-los somente bem vestida
E não com a visão que vale a pena
Pois a ela dedicaram sua vida...

09/01/2007

Sonho pampeiro (de Alma Welt)

Pleno pampa poderosa pradaria,
Um céu maior e mais profundo;
De noite as estrelas e seu mundo
A mirar-nos com sobranceria.

Ah! As alongadas sombras das coxilhas,
Pela branca lua cheia a surfá-las
São algumas das tantas maravilhas,
Que eu quisera em sonho suborná-las

E assim, nua, de noite, em desatino
Cavalguei até dormir por sobre a crina
E traída ser trazida ao meu destino,

Pois eu quis perder-me, e feminina,
Ser cobiçada e levada por rei Mino*
Ao seu oculto palácio da campina...

15/01/2007

Noturno (de Alma Welt)

Entre o casarão e o vinhedo
Está o jardim dos meus amores
Que de dia acolhe o folguedo
De guris e gurias entre as flores.

Mas nele eu navego em noite cálida
Sob a luz de uma lua espectral
Refletida e tornando-me mais pálida
Como pequena gôndola irreal

Que singra entre touceiras prateadas
Deixando rastro: cintilantes vagalumes
Companheiros de noturnas caminhadas

Sob a guarda do Negrinho e as Três Marias
Que ainda me protegem dos queixumes
Dos sonhos mortos e das fantasmagorias...

15/12/2006

O espectro (de Alma Welt)

Em noites frias aqui no casarão
Acontece do meu leito levantar
E enrolada num pala ir ao salão
Para sentir o silêncio crepitar

Na lareira, pois ali sou visitada
Por um mundo de imagens agradáveis
Que me trazem poemas inefáveis
Ou alguma coisa inusitada.

Foi ali que num lance inesquecível
O espectro da Mutti afinal veio,
Que fora tanto tempo inacessível,

E que porfim estendia-me os braços
Dizendo:"Filha, faltaram-nos abraços,
Quisera agora sentir-te no meu seio."

16/01/2007

A Mandrágora (de Alma Welt)

"Alma, esta é a mandrágora,
A raíz que grita se arrancada,
Mas não tema, não vou fazê-lo agora,
Pois ainda não estás preparada."

Assim disse Frida, a minha avó
Que tinha um aspecto de assustar
Mas que gostava de encenar
O papel de feiticeira, e era só.

E então, uma noite, eu o fiz:
Fui ao jardim e a arranquei
Puxando pelas folhas a raíz.

Mas o susto foi dela ou o contrário?
Pois o terrível grito eu escutei
Vindo do fundo do meu imaginário...

05/01/2007

Resumo da ópera (de Alma Welt)

Sob o casarão por qual lutava
Foi por mim e meu cunhado descoberta
A grande adega, ao ser aberta
Uma parede secreta que girava.

E foi-nos revelado um tesouro
De toda uma safra dos avós
Que ficara maturando no escuro
Desconhecida de meu pai, de todos nós

Que lutávamos pela casa e os vinhedos
E todos estes belos arredores,
Quando já faltava a temperança.

E foi desta senzala e seus segredos
De infâmia, injustiça e seus terrores
Que surgiu novamente a esperança.

04/12/2006

O Sonho da Alma (de Alma Welt)


O sonho da Alma com o Pavão Misterioso- pintura à oleo de Guilherme de Faria, de 100x100cm, óleo s/ tela, coleção Instituto Paulo Gaudêncio, São Paulo, Brasil

_____________________________________________




Sonhei-me em miniatura e despida
Num berço flutuante e noturno,
Mas eu era guria já crescida
E tornada uma estrela por meu turno,

Que logo revelou-se-me em pavão
Cuja cauda eram contas de mil olhos
Como num mar escuro os abrolhos
Que evitar seria esforço vão.

Mas havia um som vindo do berço
Feito por músicos vestidos de gibão
Que desfiavam as contas como um terço

Dentro daquela nave delirante
Que me punha mais nua a cada instante
À medida que chegava no Sertão.

14/05/2004

O Vento e o Maestro (de Alma Welt)

Ontem soprou forte o minuano
E bateu todas as portas e janelas
E ainda passou por baixo delas
Para fazer vibrar nosso piano

Que pôs-se a tocar feito um espectro
De música, se é que isso houvesse,
Como uma paródia do Maestro
Que legara seu silêncio como prece

Pois pra que este emoldurasse
Sua música e em nós reverberasse
Nosso pai o tocava de outro plano

Então pedi perdão e o dedilhei
Pr'afugentar rei Mino, o tal tirano
Que invadira as cordas do Steinway...

22/06/2006

Memórias do casarão (de Alma Welt)

De noite o velho casarão estala
E geme repleto de lembranças...
Então o imaginário se instala
Nos corações e cobra suas heranças

Que vêm de ainda antes dos avós
E remontam ao "gáutcho" Valentim
Que no comando fez ouvir a sua voz
E teve em si mesmo o seu motim.

No sotão sob a trave onde pendeu
Nenhuma marca no assoalho denuncia
Onde o banquinho rolando se abateu,

Mas o aroma do mate derramado
Quando a cuia tombou sob o enforcado,
Eu julguei sentir quando guria.

14/11/2006

A Abantesma (de Alma Welt)

Ó casarão da minha infância
E que me verá adormecida
No último sono, já sem vida,
Para ser a abantesma desta estância,

Por aqui onde vivi a fantasia
De ser mulher-poema e musa errante
Do meu bosque, do jardim, da pradaria
E de todo o meu pampa circundante

E quando estiver morta, que me vejam
A galopar sob o céu da Branca Via
Nua como em vida já se ouvia

Ou mesmo que não muito créus estejam,
Afirmem pra seus piás e filhas:
"Alma vagou esta noite nas coxilhas!"

18/01/2007

A dama da geada (de Alma Welt)


Geada nas coxilhas- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 1977, 80x100cm,(paradeiro desconhecido)



Esta noite caiu grande geada
Num amanhecer quase europeu,
E vi a pradaria esbranquiçada
Como se fora neve e como eu

Que saí pela campina e evaneci.
"Branca sobre branco" diz Galdério,
Que rindo quis dizer que me perdi,
Pois que não me leva muito a sério.

Mas respondi no mesmo diapasão:
"Não me viste, ó peão, a cabeleira
Vermelha, produzindo aquela esteira

De cometa fiel nas pradarias?
Era eu, e por certo não sabias
Que era mulher, estrela-guia de peão..."

12/07/2006

O Território Mágico (de Alma Welt )

Por uma senda do Pampa, invisível
Caminha o rebanho encantado
Para o território demarcado
Das Missões, onde o Sul é imperecível.

Ali, de noite, reunem-se os peões
Com suas bombachas, esporas e tacões;
As lanças farroupilhas ainda açulam
Imperiais que no sonho capitulam.

Anita é avistada, ah! tão bela!
E o bravo Giusepe se revela
O amante fiel e apaixonado

Que retorna ao Sul com sua nave
Para buscar do amor a própria chave
Que restou perdida neste prado...

15/01/2006

Belas noites de verão (de Alma Welt)

Belas noites de verão, no meu jardim
Dançavam fadas, luzes, pirilampos,
Estrelas magas vagavam pelos campos,
E as horas, propícias e sem fim.

E eu levantando do meu leito
Corria entre as sebes prateadas
Sentindo ser também uma das fadas
Com toda a Natureza no meu peito.

E leve, nua, eu como que voava,
O corpo ainda não se concentrava
Em si mesmo, inconsciente do seu pejo,

Eu só seria espírito e alegria
Se já não despontasse a nostalgia
Da futura antiga Alma e seu desejo...

26/11/2006

A Tentação da Alma (de Alma Welt)

Uma vez estando eu a passear
Pela minha dourada pradaria,
Como de hábito imersa num cismar
Que me levava além da alegoria,

Onde coisas, numes, deuses, tudo junto
Cercava-me e querendo-me com eles,
Eu encontrei um tal Mefistofeles
Que não fazia parte do conjunto,

E este rogou-me desnudar-me
Que queria que queria admirar-me
Prometendo-me tesouro todo à parte.

E eu que não me faço de rogada
Fiquei nuínha, e sim, sem querer nada,
Disse: "Eu mesma sou o Ouro e a Arte!

03/12/2006

No Labirinto da Frida (de Alma Welt)

No jardim da minha avó, um labirinto
Foi plantado por ela, eu o sinto,
Embora há quem o diga mais antigo
E que nisso consiste o seu perigo.

No seu centro toda imagem desvanece
Ou talvez encontre o Minotauro,
Pois parado ali o tempo permanece
Sem passado, sem futuro, sem restauro.

Conquanto fui guria até segura
Sempre passei-lhe ao largo com respeito
Pois prezo demais a minha figura.

Creio, no jardim da velha Frida
Mora o segredo, a causa e o efeito
Do amor e da poesia em minha vida...


05/12/2006

O último concerto (de Alma Welt

Venham memórias e tragam os amores
Que esta noite entretê-los-ei porfim
No jardim noturno em meio às flores
Sob a lua, como gotas de marfim

Entre coruscantes vagalumes
Num concerto de câmera perfeito
No qual regerei meu coro eleito
De fadas, elfos, ninfas e alguns numes.

Não faltará a voz de sopranino
Do meu Negrinho em Pastoreio
Perpétuo com seus lumes de menino

A perseguir o novilho tão bisonho
Que desgarrado vai como um ponteio
A vagar pelas sendas do meu sonho...

17/01/2007

Adeus Pampa (de Alma Welt)

Adeus Pampa, que a galope estou indo
Pra outros pagos, nua e sem a sela,
Escanchada sem pudores no meu pingo
Que como Eva sou sua costela

Antes da maçã e da serpente,
Infanta da Natura e sem pecado,
Alma pura, erótica e inocente,
A quem só amar foi destinado.

Esperem-me na Noite, ó desejosos!
Poetas, sonhadores de passagem,
Que sob suas cobertas liquefazem

Seus corpos, de graça e fina estampa,
Destilando seus fluidos licorosos
Pela Musa derradeira deste Pampa!

19/01/2007

A Infanta (de Alma Welt)

Muito viajei pelas cidades
Do mundo real e as da mente,
Europa e os reinos do Oriente
E os das lendas de antigas deidades.

Mas o Pampa, o Pampa é minha raíz...
Aqui vou mais longe ao galopar
E perco-me no mundo por um triz
E encontro meu espaço em pleno ar!

Bravos gáutchos* montados e em seus zelos
Tocam seus chapéus com os dois dedos
Ao verem-me correndo tão sem medos,

Infanta de meu reino, ou já rainha,
Meio louca, eu sei, soltos cabelos,
Mas ao passar saudada pela Vinha!

18/01/2007

Lendas do meu bosque (de Alma Welt)


Sabat das feiticeiras no bosque- Desenho a bico de pena, de 1962, de Guilherme de Faria




O meu bosque reserva o seu segredo
Para quem tem olhos e ouvidos,
Poucos, na verdade, os escolhidos
Capazes de adentrarem-no sem medo.

Principalmente quando no crepúsculo
Principiam as fantasmagorias
E aquele vago lusco-fusco
Produzido por ocultas fadarias.

"Nada de bosque!" alertava a Matilde
"Que ali o malígno espreita
Tanto guria nobre como humilde."

"Conheci uma que sumiu e não mais vi
Para me contar que coisa é feita
Com aquelas que se agacham pro xixi..."

15/01/2007

Eu e as fadas (de Alma Welt)

Guria, eu buscava no meu bosque
Não somente orquídeas e amoras,
Mas as fadas que dançavam suas horas
Numa espécie de minúsculo quiosque.

E eu as via, sim, e muitas vezes
Com elas conversei em língua estranha
Que aprendi e soube por uns meses
Antes de dar-me conta da façanha.

Pois quando pressionada por Solange,
Irmã que só tinha os pés na terra
(às vezes lembrar disso me confrange),

Revelei que era com elas que eu falava,
E num zás eu era alguém que se desterra,
E o portal das fadas se fechava...

11/01/2007

O reino da Alma (de Alma Welt)

Entre Rosário e Livramento
O reino desta Alma pampiana
Se estende muito além da Taprobana*
Onde o Preste João perdeu o jumento*,

Em meio às Bem-Aventuradas Ilhas*
Que no mar da pradaria são coxilhas
A terra de Cocaygne* ainda espera
Os aventureiros de outra Era*;

E o velho Cronos parado continua*
Na planície do Letes, vaga-mente*
Em que Ananke ainda conduz sua charrua*

Em torno ao casarão meio adernado
Que afunda comigo lentamente
Como insensata nau em meio ao prado...*

15/01/2007

Nightmares (de Alma Welt)


Pesadelos- óleo s / duratex de Guilherme de Faria,1962, 50x60cm , coleção Nina Assumpção de Faria, São Paulo, Brasil



Mal deito-me de noite no meu leito
Começo a caminhar no labirinto,
Que é este casarão dentro do peito
Com os seus fantasmas de absinto:

O espectro gargalhante de minha avó
Frida, velha bruxa feiticeira,
Joachim, meu avô se ergue do pó
E me cobra ser também uma guerreira,

A Walkíria que ele espera, ai de mim!
Que ando com medo da minha sombra,
Na fatal condenação talvez sem fim,

Ao vê-la c'uma corda no pescoço*,
Que temo ou pressinto e que me assombra
Fazendo-me acordar em alvoroço...

17/01/2007

De reinos e condados (de Alma Welt)

O meu bosque é um mundo insuspeitado
Que tenho ao meu dispor desde guria,
Com as lições matinais da cotovia,
Embora ela não seja do condado.

O rouxinol, também, anoitecendo
Eu ouço na memória ancestral,
Tão européia, eu sei, e espectral,
Esta mente com que tanto condescendo.

Pois meu Vati sustentava as minhas horas
No bosque buscando o cogumelo,
Para voltar somente com as amoras...

E eu sabia que ele garantia
A minha alma ansiosa pelo belo
Que os tempos e os reinos confundia.

12/01/2007

A casa e o lagar (de Alma Welt)

Emergindo da planície encoxilhada
Como nave entre ondas e revezes
Mas onde fui feliz no mais das vezes
Se ergue o casarão, minha morada.

Aqui eu fui guria, não piá,
Pois nasci no caminho ao Deus-dará,
Na margem de uma estrada, sem estorvo
Entre Blumenau e Hamburgo Novo.

Mas à grande sombra dos avós
Joachim e Frida, godo e feiticeira
Que plantaram a semente da videira

E construiram nova nave, o grão-lagar,
Para fazer nosso vinho, muito após,
Em seu sangue me haveria de banhar.

16/01/2007

Minhas vidas (de Alma Welt)

Tenho certeza de que um dia voltarei
Assim como voltei já muitas vezes
No corpo de mulheres e de um rei
Que não perdeu seu trono mas as rezes*.

Fui poeta, pintora e não matrona
Mas me orgulho mesmo da D’Affry*,
Adèle, a Castiglione, a Colonna
Que descobri ao ver a sua Pithie*.

Mas no século das luzes e “de Ouro”*
Fui princesa com retrato no castelo
Pintada tão real e sem desdouro

Que tive o meu “portrait” então roubado
Por um Feig que embora também belo,
Soldado, desertor e desastrado.

17/01/2007

Quando as violetas floresceram (de Alma Welt)

Quando as violetas floresceram
Eu trancei com elas a guirlanda
Com que ornei o piano que esqueceram,
Já que ali a mão de dele não mais anda.

O Steinway agora é o seu túmulo
Negro como laje de granito,
E o coração ao vê-lo dá um pulo
Se olhado de repente, como um mito.

A alma ao recordá-lo mais se cala,
Que tudo nesta sala é encantado
E um espinheiro não tarda a cercá-la

Pois sentimos avançar a sonolência
Que, lenta, vai tomando a sua essência,
E um sono de cem anos é chegado...

16/01/2007

A Salamandra retornada (de Alma Welt)

E a Salamandra apareceu de madrugada
Nas chamas da fogueira na campina!
Estava eu com meu Rôdo acordada,
Co'a chaleira em chiadeira muito fina,

Envoltos nos palas, sob estrelas
Que velavam o serão do meu destino,
E que se aproximaram para vê-las,
Às chamas, e ao show reptilíneo

De seu elemental perante um par
Que assim indagava seu caminho
Qual se fora plausível e comezinho.

Então, acreditem, ela mostrou,
Aquilo que não posso revelar,
E a Alma em solidão sempre sonhou...

15/01/2007

Ao oráculo (de Alma Welt)

Esta noite farei uma consulta:
Preciso saber o meu destino...
Não me refiro só a morte estulta,
Que não sei será acerto ou desatino.

Mas o que será de mim, poeta,
Após passo prematuro ou temporão*,
Meus versos recolhidos comporão
O grande livro que é a minha meta?*

Toda a minha vida nestas letras,
E mais: uma saga do meu Pampa,
Aquela dos avós, netos e tetras,

Tudo e todos que eu trago junto a mim
Nesta Pandora virtual sem tampa*,
Que há de ver-me cavalgando até o fim...

16//2007